8 de ago. de 2026

A Ilusão da Era Conectada


Poucas experiências foram tão reveladoras quanto o dia em que decidi alterar a dinâmica de uma avaliação de Cálculo Diferencial e Integral 3 para uma turma de Engenharia Mecânica. O exame, focado em Integrais envolvendo Funções Hiperbólicas, fora planejado tradicionalmente: sem consulta, sem calculadoras e sem formulários. No entanto, após repassar as orientações rotineiras, surpreendi os estudantes com um anúncio inusitado: “A avaliação de hoje poderá ser realizada com consulta a todo material e recursos que estejam em seu poder agora. Apenas mantenham a prova individual, sem troca física de informações com os colegas da sala.”

O impacto foi imediato. Tomados por um silêncio atônito, os acadêmicos entreolhavam-se sem acreditar. Vindo do fundo da sala, um aluno perguntou: “Posso mandar mensagens pelo celular para a minha mãe, professor?”

Ao que respondi: “Claro que sim. Podem usar internet, livros, cadernos, notebook, smartphone, formulários, WhatsApp ou até sinais de fumaça. Só não podem sair da sala ou receber material físico de fora.” Outro estudante, perplexo, desabafou: “Desta vez morri. Só trouxe uma caneta.”

Superada a agitação inicial, a atmosfera mudou quando os alunos perceberam que todas as questões da prova eram idênticas aos exercícios resolvidos das listas distribuídas previamente ao longo do semestre. Murmúrios tomaram a sala: “Todas as questões são iguais às das listas.”

A euforia, contudo, durou pouco. Diversos estudantes começaram a entregar a prova em branco ou incompleta, apresentando justificativas estarrecedoras: “Assim não vale, professor, pois as questões da prova são cópias das listas, mas eu não tenho mais os arquivos”; “Apaguei os exercícios do celular para liberar memória”; “Meu notebook descarregou e esqueci o carregador em casa”; “Achei que as listas não serviam para nada”.

Aquele episódio escancarou um contraste desconcertante entre a abundância tecnológica e o letramento funcional na universidade. O paradoxo central residia na distância entre o dado disponível e a capacidade real de interpretá-lo e aplicá-lo.

Ao delegar a memória e a atenção integralmente aos dispositivos virtuais, o estudante moderno torna-se refém da própria ferramenta que deveria libertá-lo. Ter a informação a um toque de dedos difere substancialmente de possuir o conhecimento consolidado no pensamento.

A lição foi clara: a verdadeira autonomia acadêmica não está na posse do dispositivo, mas na capacidade crítica de gerenciar a informação. A mera disponibilidade de acervos não garante o aprendizado real; ao contrário, pode nutrir uma falsa sensação de sabedoria imediata que desestimula o estudo contínuo e a assimilação profunda.

DIAS, Carlos Magno Corrêa - 2026

Diante dos resultados alarmantes, obriguei-me a cancelar aquela avaliação e não mais repetir a experiência. Restou o alerta sobre o enorme fosso que ainda separa a conectividade técnica da maturidade intelectual nas universidades.

Carlos Magno Corrêa Dias
08/08/2026