Em outubro de 2021, em meio aos escombros e às incertezas que sucederam os momentos mais agudos da crise sanitária global gerada pela pandemia da Covid-19, quando ainda se contavam os óbitos imediatos e se buscava a retomada da normalidade, escrevi um artigo com reflexões prevenindo a sociedade sobre os graves riscos que viriam no pós-pandemia principalmente no campo neurológico.
Ao celebrar os cinco anos daquele relato, impõe-se revisitar suas premissas para compreender a real magnitude do fardo pós-pandêmico que ainda segue afetando sistemas de saúde e famílias em escala global.
Rompendo a visão restrita de que a periculosidade da Covid-19 se esgotava no ato do falecimento ou na fase aguda da infecção respiratória, a reflexão em tela chamou a atenção para o fato de que a infecção sistêmica, a inflamação vascular generalizada e o estresse hipóxico inerentes à doença grave funcionavam como catalisadores potentíssimos de declínio cognitivo.
Organizações científicas e sanitárias citadas à época já projetavam cenários alarmantes, como a multiplicação acentuada de novos casos de demência entre as populações idosas e mesmo em faixas etárias intermediárias que sofreram com formas severas da moléstia.
Passada meia década, o que antes era uma projeção baseada em prognósticos preliminares consolidou-se em uma realidade epidemiológica mensurável, frequentemente associada ao espectro da chamada "Covid longa" (“long COVID”).
A relevância de trazer esse debate para o centro da discussão pública demonstra a transversalidade dos impactos de uma crise sanitária. A infraestrutura de um país não se resume a pontes, estradas e redes lógicas; ela reside primordialmente em sua capacidade de cuidar das pessoas, de antecipar vulnerabilidades e de estruturar redes de assistência médica e social capazes de absorver demandas complexas.
Embora incômodo, o assunto referenciado permanece atual e faz recordar que as verdadeiras cicatrizes de uma pandemia não se fecham com a decretação do fim de uma emergência sanitária global, mas ecoam por gerações, exigindo vigilância constante, empatia institucional e a certeza de que a saúde mental e neurológica é um pilar inegociável da dignidade humana.
DIAS, Carlos Magno Corrê - 2026
O artigo encontra-se disponível no portal da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros) sob o título “Para além da morte Covid-19 intensifica casos de Demência” (datado de 21/10/2021 em https://www.fne.org.br/index.php/artigos/6450-artigo-para-alem-da-morte-covid-19-intensifica-casos-de-demencia) e no portal do SEESP (Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo) com ligeira alteração no título, publicado como “Para além da morte, Covid-19 intensifica casos de demência” (datado de 26/10/2021 em https://www.seesp.org.br/site/index.php/comunicacao/noticias/item/20663-para-alem-da-morte-covid-19-intensifica-casos-de-demencia).
Carlos Magno Corrêa Dias
26/10/2026


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